Fobias podem ter origem no parto

Por Cristina Lima

Algumas fobias, como o medo de lugares fechados e de multidões, podem ter origem nas desagradáveis experiências que o feto tem durante o trabalho de parto e o momento do nascimento.
A conclusão é do psicanalista Romildo Gerbelli, 49, que concluiu recentemente um estudo sobre “A dinâmica do psiquismo perinatal”, no qual pesquisou passo a passo o que o feto registra em sua mente durante o trabalho de parto, que pode começar cerca de 40 dias antes de seu nascimento.
Na pesquisa, baseada no trabalho realizado com seus pacientes durante dez anos (leia texto abaixo), Gerbelli buscou encontrar o que existe de registros de experiências fetais ao redor do trabalho de parto na mente de adultos. De acordo com ele, o estudo é inédito em todo o mundo.
O psicanalista acredita que os medos e fobias parecem acontecer quando o adulto revivencia experiências naturais desagradáveis ocorridas durante o trabalho de parto e o momento do nascimento propriamente dito.
Como o feto não entende o parto como uma transposição, mas como um processo aprisionador e predador, ele vive várias vezes a experiência da morte e tem sentimentos como abandono, desamparo e angústia, porque não entende o que está se passando.
“Até então, ele vivia em um útero provedor, em condição de ‘liberdade’, vivenciando inclusive suas primeiras experiências com a libido. Quando começam as contrações e ele fica espremido, sente como se estivesse sendo contido dentro daquele corpo para ser predado. É como se estivesse no inferno”, compara o psicanalista.
Nesses momentos, o feto recorre ao conteúdo instintivo, utilizando informações genéticas que o levam à idéia de predação. Ele fixa essas informaçãos na mente.
Quando são revivenciadas, as emoções da predação nem sempre acontecem em situações reais, mas a pessoa que as sente tem a sensação de estar sendo novamente ameaçada.
Continuando o processo do parto, cada vez que as contrações uterinas cessam, o feto revive todas as sensações boas que teve no útero provedor.
“Nesses momentos, o feto nasce de novo, pois se lembra dos registros bons das épocas em que vivia em liberdade no útero por meio de uma regressão mental”, diz Gerbelli.
Em seguida, quando recomeçam as contrações, o feto volta a perder a consciência e desmaia, mas registra isso como se estivesse morrendo. A sucessão desses sentimentos pode durar todo o tempo do trabalho de parto, o que torna a experiência extremamente angustiante para o feto.
“Na idade adulta, tudo isso pode voltar em forma de impressões de monstros que tentam nos atacar, acidentes, morte, claustrofobia, medo de ser pisoteado por multidões. É como se revivêssemos as sensações que tivemos quando éramos feto”, explica o psicanalista.

Trabalho é baseado em relatos

A pesquisa realizada sobre o psicanalista Romildo Gerbelli sobre “A dinâmica do psiquismo perinatal” é baseada nos relatos de seus pacientes no divã durante dez anos. A técnica psicanalítica possibilitou que Gerbelli chegasse ao núcleo de registros ao redor do trabalho de parto desses pacientes adultos, fazendo com que encontrasse algumas causas de seus medos.
“A técnica permite que pessoa fique consciente e converse naturalmente sobre seus problemas. Utilizando o método, consigo fazê-la revivenciar as situação de trauma e fixação com o psicanalista, chegando, assim, ao conteúdo desses núcleos de registro”, explica.
Parte dos motivos de medos e fobias dos pacientes são, assim, revivenciados na relação analítica, na qual podem ser reconhecidos, analisados e tratados.
“Por meio dessas técnicas, chegando a conteúdos bastante regredidos da mente, conseguimos reestruturar a personalidade dos pacientes”, conclui. (C.L.)

Fonte: http://www.folhadaregiao.com.br/jornal/2000/09/09/cidades.php?PHPSESSID=cab649a37f118650841c79bf194b7936

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