Transtorno Bipolar: entre a euforia e a depressão (20/06/2006)

Ciclos de depressão alternados com picos de euforia e ansiedade são as principais características do Transtorno Afetivo Bipolar, uma doença que atinge mais pessoas do que se imagina. Segundo o CID (Código Internacional de Doenças), o transtorno provoca a alteração do humor e se caracteriza pelo aumento e diminuição da atividade mental.

No primeiro caso, é quando os sintomas atingem picos de euforia, ansiedade e irritação. A elevação de humor pode gerar sentimentos de grandiosidade, quando o paciente pode se considerar uma pessoa especial e até dotada de poderes. Aumento da atividade motora e diminuição da necessidade do sono também são características dessa fase.

A segunda situação se manifesta no estado depressivo. A auto-estima abaixa, causando sentimentos de inferioridade e sensação de cansaço. Nessa etapa, há grande dificuldade de concentração e falta de gosto pelas atividades consideradas anteriormente agradáveis.

Conforme o psiquiatra Romildo Gerbelli, o transtorno era chamado antigamente de psicose maníaco-depressiva. Alterações no cérebro causam um distúrbio no funcionamento emocional.

A doença pode atingir pessoas de diferentes faixas etárias, mas ocorre especialmente no final da adolescência. Ele explica que o surgimento inesperado das crises pode ser desencadeado por fatores hereditários ou por aspectos emocionais.
“Fixações mentais da infância ligadas ao desamparo, por exemplo, desilusões, decepções, grandes perdas ou fracassos são alguns dos possíveis motivos para o desencadeamento.”

INTERNAÇÃO  – A faxineira Ana Cecília Martins dos Santos, mãe de Adriano, 19 anos, descobriu o distúrbio do filho em dezembro do ano passado. Ela acredita que o que motivou o início das crises foi o fato do filho ter sido demitido do emprego e ter presenciado um acidente de trânsito com vítimas fatais na mesma semana. “Ao final de 2004, Adriano também teve depressão. Acho que tudo isso facilitou o surgimento da doença”, revela.

Ana Cecília conta que no dia da crise, Adriano falava, incessantemente, sobre assuntos do passado relacionados à família e a situações que já tinham vivido. “Ele estava agitado e com atitudes incomuns”. No dia seguinte, o jovem passou mal e foi levado ao hospital. Durante dois meses, Adriano ficou internado no Hospital Psiquiátrico Benedita Fernandes, em Araçatuba. Atualmente, ele está em casa, controlando os picos da doença com medicamentos e a ajuda da mãe e de amigos.

O médico responsável pela área clínica do hospital, José Uzan, explica que a doença pode atingir três níveis: leve, moderado e grave. “O leve não afeta o convívio social e as relações de trabalhos, o tratamento pode ser ambulatorial (feito em casa com consultas ao médico). O moderado começa a afetar as relações e é quando surgem as manias (estado exaltado de humor). Nesse caso, o médico deve acompanhar de perto e avaliar as situações do paciente. O estágio grave provoca ações agressivas ou inconscientes que podem machucar o paciente e até mesmo outras pessoas. Nessa fase é preciso pensar na internação.”

O psiquiatra Gerbelli também acredita que internar deve ser o último caso. “Fazemos o possível para que isso não ocorra. Desde 1980, há um movimento para a não internação. Mas se realmente for preciso, que seja o menor tempo possível.”

DIAGNÓSTICO – Segundo Gerbelli, o diagnóstico da doença é muito difícil de ser dado com plena certeza porque é essencialmente clínico, ou seja, é feito através de observação e de análise do histórico do paciente e da família. “Pode levar cerca de sete anos até que seja possível ter certeza se é o transtorno bipolar ou outra doença parecida. Felizmente, hoje os psiquiatras estão mais habilitados a diagnosticar.”

Depois de comprovado o distúrbio, o próximo passo é encontrar o tratamento adequado, o que não é muito mais fácil. Gerbelli conta que geralmente os pacientes que sentiram algum tipo de alteração no humor chegam à clínica pedindo antidepressivos. “Isso é um erro. No tratamento do transtorno bipolar, essa medicação tem que ser evitada.” Para o médico, há essa procura porque os pacientes acreditam que só precisam de ajuda quando estão no estágio depressivo. “Na maioria das vezes, eles não aceitam a doença quando estão nos picos de euforia.”

Na busca pelo tratamento adequado, os estabilizadores de humor são usados para equilibrar a mente. Nesse período, os médicos ainda encontram algumas dificuldades, como efeitos colaterais, rejeição aos remédios e dose errada. “Quem vai confirmar se o medicamento e a dose deram certo é a reação do paciente. Isso, porém, pode levar cerca de cinco anos. Às vezes conseguimos acertar na primeira tentativa, e considero meio milagre quando isso acontece”, relata Gerbelli.

O médico Uzan explica que o tratamento no Hospital Benedita Fernandes é multidisciplinar. No primeiro passo, depois da internação, o paciente é atendido por um clínico-geral para avaliar a saúde como um todo. Em seguida, o psiquiatra avalia os sintomas e sugere um diagnóstico, inserindo o tratamento medicamentoso. Além disso, ainda há o tratamento psicológico, a terapia ocupacional e aulas de educação física.

Quando o paciente está se preparando para receber alta, a família é orientada pela assistência social sobre os cuidados que devem ser tomados em casa. “Nos preocupamos em readequar o paciente à sociedade, fazendo com que ele volte a se sentir novamente à vontade entre outras pessoas”, conta Uzan.

PACIENTES TENDEM A SER ESTIGMATIZADOS

Ana Cecília Martins dos Santos, mãe de Adriano, procurou grupos de apoio para pacientes com esse transtorno, além de cursos que ocupassem o tempo do filho, mas não encontrou. “Eu saio de casa para trabalhar e tenho receio de deixar Adriano sozinho”, revela. Ana Cecília comenta que gostaria que o filho fizesse algum curso, enquanto não conseguisse arrumar emprego.

Ela conta que parou de trabalhar em período integral para cuidar de Adriano. No momento mais crítico, a família se desdobrou para conseguir continuar o tratamento. “A nossa vida virou de cabeça para baixo. Precisamos vender algumas coisas, acumulamos contas e tivemos até falta de alimento, mas não descuidamos dele.”
Atualmente, as crises de depressão e euforia estão controladas. Segundo a mãe, Adriano sempre foi muito alegre e animado, cultivando o gosto pela música. Durante a entrevista, se mostrou bem-humorado e comunicativo. Ele conta que depois que voltou para sua casa está reaprendendo algumas coisas, como escrever. “Parece que depois que saí do Hospital, a minha mente ficou vazia. Tinha uma sensação ruim”, revela.

O psiquiatra Romildo Gerbelli explica que os pacientes que apresentam esse transtorno muitas vezes ficam estigmatizados. “Infelizmente, as crises e o fato de terem sido internados um dia prejudicam o entendimento das outras pessoas. O paciente com transtorno afetivo bipolar consegue voltar ao seu normal depois das crises.”
Segundo o psiquiatra, esse é um mal inerente ao ser humano e atinge entorno de 5% da população mundial. “Os problemas da vida e as dificuldades em lidar com o sofrimento podem despertar alterações mentais. É muito comum as pessoas saírem às compras para forçar uma euforia, por exemplo, ao invés de lidarem com a dor”, argumenta Gerbelli.

Fonte: http://folha.fr/54447

Comments are currently closed.